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Os meus heróis: Fredric March, o melhor "chefe de família"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.08.10

 

Inicio hoje uma série de posts sobre os actores na pele das personagens que mais me impressionaram, e pelas respectivas razões. A lista é longa e não há propriamente preferências. Dedicar-me-ei para já aos actores, depois lá irei às minhas heroínas (actrizes e personagens femininas).

Esta série tem uma razão infantil: eles foram (e ainda são) os meus heróis. É neles que primeiro penso quando procuro uma referência sobre uma qualidade humana, e aqui não distingo homens ou mulheres. Por exemplo, "melhor chefe de família" (ui!, pecado mortal, machismo aceite por uma mulher!): Fredric March.

 

Fredric March vi-o pela primeira vez no The Best Years of Our Lives e ficou logo ligado a esse papel para sempre. O pai de alguém. O marido de alguém. Mas também o major numa guerra lá longe, que defende os seus homens (liderança). E que agora volta a casa, receoso do regresso (readaptação à vida civil digamos assim). E o bancário que percebe qual é o verdadeiro collateral (garantias) de cada cliente: o seu potencial e capacidade de trabalho.

 

A seguir, pela ordem temporal dos filmes que vi, as várias personagens:

- um poeta, Robert Browning, que respira saúde e vitalidade por todos os póros, a contrastar com uma Norma Shearer (Elizabeth Barrett) pálida e fraquinha, que consegue libertar da prisão dourada do pai tirano (Charles Laughton).

- um executivo ambicioso, Loren Phineas Shaw, em mais um magnífico Robert Wise. Habituada a vê-lo do lado das qualidades que valorizo, estranhei esta personagem, claro está. Mas Fredric March está perfeito nesta pele, dá-lhe a ambiguidade humana, a complexidade humana.

- um corsário astuto, arrogante e vaidoso, Jean Lafitte, que acima de tudo quer comprar a respeitabilidade na melhor sociedade de New Orleans. Um Cecil B. DeMille. Este vi-o esta semana, por isso está fresquinho. Fredric March veste muito bem o papel da liderança, tem a pose, a atitude, a genica. O traço protector também já lá está, aliás, já o vimos no Robert Browninig. A rapariga que o adora é tratada de forma paternal. Esse pormenor funciona muito bem no filme. É mesmo enternecedor (novo pecado mortal... ups!)

- e finalmente, ainda ontem, um pai de família, tal como em The Best Years of Our Lives, mas no meio do maior pesadelo: a família é sequestrada por três criminosos fugitivos. Daí o título sugestivo: The Desperate Hours. De novo William Wyler, o realizador que melhor percebeu o papel perfeito para Fredric March.

 

Este The Desperate Hours mantém-nos suspensos até ao fim. Outra coincidência interessante: impossível não ver o paralelo, neste Humphrey Bogart-Glenn Griffin, com o Duke Mantee da Floresta Petrificada. Em ambos, espera pela namorada. E em ambos, é apanhado devido à espera. Aqui, a espera também está ligada ao dinheiro (que a namorada lhe deveria trazer) e à vingança pessoal (o polícia que o prendera e lhe deixara uma marca no maxilar).

 

O ritmo do filme é perfeito. Tudo se desenrola aparentemente de forma normal, mesmo na maior anormalidade. A tensão vai aumentando. O perigo também.

Percebemos, antes mesmo das personagens, o drama que se irá seguir. Ao mostrar em simultâneo as diversas cenas e as diversas personagens, associamos acontecimentos que os próprios envolvidos não podem prever ou sequer imaginar. Este é um dos recursos mais importantes da linguagem do cinema (também usado na literatura) e dos mais eficazes na construção de uma tensão, intensidade emocional, que pode ir do medo ao terror. Aqui é mais uma angústia, a expectativa, as fracas possibilidades de fuga.

Os planos cuidadosamente elaborados, luz e sombras bem definidas, a reforçar o ponto de vista de cada personagem. Reparem bem na cena final, a família finalmente reunida, o namorado da filha fica para trás e nós com ele, na sombra. Tal como ele, esperamos pelo sinal do pai da namorada para se ir reunir à família. Vemo-lo então (emocionados) a aparecer à porta de casa, a fazer-lhe sinal. Magnífico suspense até ao fim (the end).

E a atmosfera dos filmes desta década (50) e da seguinte, nunca me cansarei de o dizer, é única. Casas luminosas e tranquilas, onde uma vida simples se desenrola, um quotidiano sem história a não ser a história humana natural, cresce-se, constrói-se o seu próprio espaço-tempo, vem uma nova geração, repete-se o ciclo.

 

A família como grupo unido na adversidade. Numa década (anos 50) que nos habituou a filmes de adolescentes rebeldes e de pais inseguros (antecipando-se em 2 décadas a tudo o que nos aflige por cá), é quase reconfortante ver uma família funcional. Um miúdo de 9 anos a querer ser tratado como um homem. Uma jovem a proteger o seu espaço e o seu tempo. E pais que sabem promover essa autonomia, ainda que com algumas reservas e resistências. E que na hora da verdade estão todos unidos, um por todos e todos por um.

 

Nas horas de maior perigo, ao pai está reservado o papel mais difícil. Terá de pensar rapidamente, todos os segundos contam, qualquer deslize pode ser fatal, como o avisa Griffin. Avisar a polícia está fora de questão. A sua prioridade, como dirá no final ao detective, é proteger a sua família. Para isso faz um acordo com Griffin, a haver alguém a servir de refém que seja ele.

Há momentos em que se terá de impor (autoridade), mas não atribuímos isso a nenhum tique machista ou autoritário. Há a idade (sim, aqui conta), a experiência (a selva lá fora), e a noção clara que ele é quem melhor se pode movimentar nesses cenários.

A sua autoridade (liderança) não se impõe pela força, mas pela razão, pelos argumentos. Forma uma equipa com a mulher - partilham informação, ouvem-se mutuamente, respeitam-se - e depois decide, pesando bem todas as hipóteses.

 

É esse o papel do "chefe de família", expressão que pode perfeitamente escandalizar os pós pós modernos actuais. É que eu não sou nada moderna, no sentido da actual ausência de regras, de prioridades, de sensatez. Assim como não sou nada tradicional, no sentido do conformismo e da rigidez, bafio que ainda conheci. Admiro as qualidades humanas intemporais, é só isso. E sim, aprecio muito a maturidade, a sabedoria, as rugas, esse mapa da vida.

 

 

 

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publicado às 20:00

John Huston e um dia de sol

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.08.08

Ontem foi O Dia John Huston no canal TCM. Soube-o por acaso, quando por lá passei à espera de um "milagre". E às vezes, sim, às vezes, o "milagre" acontece: apanhei, quase no início, The Treasure of the Sierra Madre. No final, uma entrevista com a filha, Angelica Huston e o anúncio do filme seguinte (que nunca tinha visto): The Red Badge of Courage.

John Huston, como fui espreitar a uma breve biografia, nasceu a 5 de Agosto de 1906, no Nevada. E para celebrar aqui, com um dia de atraso, o seu cinema-arte - como disse, tão poeticamente, Angelica Huston: a bitter sweet morality about it, lembrei-me de um texto que lhe dediquei, e às suas personagens, e que anda a navegar desde 97... Dei-lhe o título poético John Huston e um dia de sol. Aí vai, devidamente adaptado à navegação deste rio:

 

Primeiro, o cenário. Muita luz, branca. De sol ao meio dia. De um país da América central ou de África. As sierras ou as plantações. Não esquecer as personagens. O protagonista d' As Raízes do Céu aproxima-se de papel na mão. Dizem que o seu criador lhe deu essa capacidade rara nas pessoas, a determinação. Mas há quem diga que foi a imaginação que o salvou durante a guerra, preso num espaço exíguo. Conseguia transportar-se para essas planícies intermináveis onde manadas de elefantes se deslocam em liberdade. O determinado e imaginativo cruza-se agora com uma criatura louríssima como o sol africano e os movimentos, uma coreografia estonteante. Lamentou profundamente que não estivessem no mesmo filme. A vida é injusta, pensou. Não estamos no mesmo filme mas ainda me vai assinar a petição. Assinou, depois a mesma coreografia de bailarina. Descobriu mais tarde, e devido à sua capacidade imaginativa, tratar-se de uma das personagens d' Os Inadaptados. Não tinha nada o ar de inadaptada mas as aparências iludem mesmo os mais perspicazes.

A mania de nos obrigar a trepar esta montanha com este calor. Outro protagonista ao sol do meio dia. Nem uma bebida fresca. Que falha na organização! Eh, viste passar o das petições? Encontramo-nos a toda a hora desde que me meteram naquela aventura horrorosa em África. Pelo menos o calor aqui é seco. Andar a trepar montanhas ou a puxar por um barco a cair aos bocados num rio africano, eis o preço da amizade. Ele gosta de nos ver transpirar. O calor não o afecta, antes pelo contrário. Parece um lagarto, os olhos de lagarto, o sangue frio. Gargalhadas.

Foi o que eu vi naquela noite, no México, que as iguanas se parecem com ele. Gargalhadas. E bebe mais do que eu, pelo menos aguenta-se melhor. Deve ser do sangue frio. O homem deve ser é uma espécie de mágico, um hipnotizador, porque eu não acredito que só pela amizade me apanhava nesta sierra. Aponta para o vale. Pelo menos o cônsul tem a sorte de passar o filme no bar, naquela esplanada à sombra.

Sim, sim, mas farta-se de sofrer e isso é o pior, vermo-nos encurralados na pele de um sofredor. Pelo menos eu tenho momentos divertidos e mesmo alguns em que se sente o verdadeiro calor humano. É preciso ter estrutura de sofredor para suportar o que ele suporta. Ou gostar de sofrer.

Meus amigos, porque é que a verdade é tão cruel? Ambos se voltaram para a olhar.

O protagonista de aventuras em África suspira. É a nossa amiga que nunca se queixa da vida, continua a descer aquele rio com o ar mais natural deste mundo.

A amiga sorriu, depois dirigiu a voz solene para o noctívago em noites mexicanas. E o teu anjo protector?

Não sou o único cruel nestes cenários, mas os piores por vezes são os melhores, cada um no seu papel, o meu anjo esfuma-se sempre, sempre quando amanhece... mas tenho o mar e uma companhia, é mais do que suficiente para um elemento da espécie humana.

Não sejas tão sarcástico, pode ser suficiente para a espécie humana como dizes, mas não é para uma personagem. Voltaram-se, era o homem das petições e dos elefantes. E a minha causa é esta, as nossas causas são sempre maiores do que nós, os nossos sonhos maiores do que nós...

Elefantes, que grande causa... O tom sarcástico pertencia ao protagonista, os olhos semicerrados.

O homem das grandes causas fixou-o. Está tudo interligado, o próprio cônsul entendeu perfeitamente, a mulher louríssima entendeu. Os elefantes são a última réstea de liberdade e dignidade da espécie humana. Não vou perder mais tempo a explicar tudo isso, passo a vida a fazê-lo. Assinem aqui e pronto.

 

 

 

 

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publicado às 13:04

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44

High Sierra

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.09.07

Quando o nosso herói é perseguido, no final, já viveu decepções, traições, e assistiu à mediocridade e à estupidez humanas, a sua terrível vulgaridade.

A rapariga que ajudara a libertar-se de uma limitação física, revelou uma limitação de alma, e essa não é operável. Rejeitou-o por um imbecil oportunista. Os parceiros do grupo do assalto degladiam-se por motivos básicos, primários. O ilusório sentimento de posse que dominou os seus ancestrais.

Mas ainda foi a tempo de descobrir o amor dedicado, desesperado, canino, e não só do cão, o “que dá azar”, mas da mulher que o acompanha até ao fim.

A montanha rochosa, imponente, magnífica, indiferente à perseguição e, no entanto, metáfora da liberdade, de valores como a rebeldia do indivíduo numa sociedade que se torna sufocante. A subida à montanha, o último refúgio. A liberdade possível.

“He’s free… free…” Ida Lupino a chorar e a sorrir… “free…”

 

 

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publicado às 17:37


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